segunda-feira, 19 de abril de 2010

As Bacantes” de Eurípedes, escrita provavelmente no ano 406 a.C e muito elogiada na antiguidade, gira em torno do deus mitológico Dioníso, sua chegada em Tebas, e a vingança por duvidarem de sua divindade. As Bacantes são as mulheres de Tebas (casadas, solteiras, velhas, viúvas, jovens, virgens), toda comunidade feminina de Tebas que está fora dos limites da cidade, nas montanhas.

“As Bacantes” é um importante documento para o estudo da religião dionisíaca, os estudos psicanalíticos e antropológicos, o estudo da relação específica entre Dioniso e o festival trágico e, sobretudo, para o estudo do drama grego. Trabalha com questões muito importantes para a cultura grega e vamos ver, aqui, algumas delas.

Polis – espaço geográfico delimitado.
Xénos – estrangeiro ou bárbaro (costumes e hábitos diferentes: religiosos, etc.).
Ágora – parte pública de uma cidade.
Óikos – parte privada de uma cidade.

Dentro dos muros da cidade aconteciam as decisões jurídicas e políticas, as transações econômicas, os festivais religiosos, toda a parte importante econômica-social e religiosa. Mulheres e crianças mantinham-se em casa, enquanto os homens e os Metecos, (estrangeiros sem direitos a cargos) circulavam pelos espaços públicos. Fora da região circunvizinha habitada ao redor da polis, florestas e montanhas, e mais além, o “selvagem”, o “desconhecido”, estrangeiro.


Na peça, no texto trágico em geral, pode-se ver refletidas muitas dessas tensões. Temos, em “As Bacantes”, visivelmente esta tensão entre a polis e o estrangeiro.

Estrangeiro – Dioníso, Coro das Mênades (da Líbia).
Polis - Tebas

Este jovem estrangeiro, que vem a ser Dioníso, inclusive instaura na polis um novo culto e, desta forma, subverte toda a organização espacial, social e religiosa de Tebas. As mulheres saem do espaço do Óikos para as montanhas, abandonando os maridos e filhos, para entrar neste culto. Vão para este espaço selvagem (Citerão) e, inclusive anciãos, como podemos ver com Cadmo, e sacerdotes, como Tirésias, também aderem. O rei e todos os homens da polis, então, tentam agir contra esta ameaça à ordem pública.
Penteu, o rei jovem e confiante, se baseia nas forças militares, sem querer aceitar a origem de Dioníso (um deus mitológico). Com sua recusa a ouvir, ele torna-se alheio a informações que lhe são postas, de forma racionalista e cética. É um personagem que não demonstra muito apego ou respeito ao metafísico, tem um pensamento provindo do militarismo, sempre estratégico.

Conflito do homem da época que são bem representados por Penteu:
Tradição, crenças e certezas antigas X Dúvidas em relação a idéia de divindade

Vê-se, também, o embate em relação à cidadania. Existiam os cidadãos tebanos, nascidos no território, como Dioníso - que nasceu de Sêmele, uma tebana; e os estrangeiros, não pertencentes, de outras línguas e hábitos, tal como Cadmo (provindo da ásia) - formando um paradoxo: há Dioníso, não aceito em seu lugar de origem, enquanto Cadmo é visto como herói. Esta oposição entre cidadão e estrangeiro é, no entanto, somente aparente, se sabemos que Dioníso é, assim como Penteu, neto de Cadmo.

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